A próxima contribuição de Reagan: uso de célula-troncos

Campanha da viúva do ex-presidente pode influir em decisão do Congresso sobre uso de células-tronco

As manifestações de apreço para com Ronald Reagan - um presidente íntegro e a mais famosa vítima do mal de Alzheimer - podem ajudar a resolver o impasse que está atrapalhando um maior apoio federal ao uso de células-tronco embrionárias na pesquisa médica.
Hoje, o debate sobre células-tronco tem alcance maior do que assuntos como o Iraque. Como vamos levar avante a promessa de curas genéticas para doenças terríveis sem cair no abismo da clonagem humana irrestrita?
O presidente Bush lutou com isso dois anos. Propôs uma solução conciliatória que permitia a pesquisa financiada pelo governo nas poucas linhas de células existentes então, mas não nas novas linhas, até que analisássemos totalmente a questão. Essas células-tronco podem trazer nova vida a órgãos moribundos, incluindo o cérebro. Elas são retiradas de blastócitos, a união do espermatozóide com um óvulo que, com menos de duas semanas de vida, cabe numa cabeça de alfinete.
Os opositores dizem que cultivar essas células destrói vida humana em potencial; os defensores dizem que elas são restos de bancos in vitro e já fadadas à destruição, doadas por pessoas para quem 'pró-vida' também significa salvar pacientes em sofrimento.
Mas Washington nem dá a arrancada nem interrompe o progresso da ciência. Um biólogo de Harvard, com apoio particular, desenvolveu 17 novas linhas de células e está disponibilizando-as.
Sul-coreanos foram mais longe, extraindo células-tronco responsavelmente de um embrião humano clonado.
Não é mais possível controlar o desenvolvimento da genética, que, goste ou não o governo, cresce em ritmo acelerado. Se não agirmos agora para dirigi-la para fins moralmente aceitáveis - a cura e o tratamento de doenças e não a manipulação monstruosa e a produção de clones para peças de reposição - , nos arriscamos a perder a imperfeição que nos faz humanos. Felizmente, a comissão de especialistas em ética e cientistas nomeados por Bush tem feito uma análise séria sobre isso. Chamo sua atenção para seu relatório Beyond Therapy, de 2003, e insisto que leia Reproduction and Responsibility.
Provoca reflexão, uma raridade em documentos do governo. O presidente da comissão, Leon Kass, especialista em ética científica, insiste que os cientistas 'se integrem à discussão sobre a regulamentação e proponham princípios e limites'.
Já Michael Gazzaniga, um dos principais cientistas cognitivos mundiais, sugere: 'O Congresso pode votar para tornar ilegal a clonagem humana. Ao mesmo tempo, poderá permitir que a clonagem biomédica avance.'
É aqui que entra o fantasma de Reagan. Há algum tempo, Nancy Reagan defende a união dos talentos e da força financeira do Instituto Nacional de Saúde para trabalhar em doenças como Alzheimer, mal de Parkinson e diabete.
Nancy fala por si mesma; a opinião do marido nunca será conhecida. E talvez seja injusto permitir que o sentimento influencie um debate ético. Mas, se a opinião pública, já tendente para os direitos dos aflitos, pode ser influenciada pela associação do carinhosamente lembrado Reagan com o incentivo à pesquisa com células-tronco e o controle rigoroso da clonagem, digo que é uma boa coisa.

William Safire. O Estado de São Paulo - Traduzido do "New York Times" - Fonte: Rede Saci

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