Cientistas testam novas terapias contra lesões da medula espinhal

A combinação de diferentes terapias possibilitou a recuperação motora de ratos em até 70%, após lesão medular. Os cientistas utilizaram células de Schwann (CS) - encontradas no sistema nervoso periférico e que produzem o isolante mielina nos nervos - combinadas com as substâncias AMP cíclico, molécula presente no organismo que participa de diferentes reações intracelulares, e o Rolipram, medicamento usado normalmente como antidepressivo. "Para tanto, foram dois anos de intenso trabalho", conta o professor Francisco Carlos Pereira, do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.
Para este experimento, as células de Schwann foram multiplicadas em cultura. "A associação das células de Schwann com as duas substâncias AMP cíclico e a droga Rolipram apresentou excelentes resultados", conta o pesquisador. As células e o AMP cíclico foram injetados na medula lesionada dos ratos, enquanto o Rolipram foi administrado por via sistêmica nas duas semanas seguidas à lesão. "Percebemos, entre outros resultados, a diminuição dos níveis do fator de necrose tumoral alfa (TNF-a) que estão sempre aumentados nos processos inflamatórios", aponta Pereira. O Rolipram possibilitou ainda o aumento dos níveis de AMP cíclico. "Com isso foi possível observar maior quantidade de axônios mielínicos no local da lesão e uma diminuição da degeneração dos tecidos", descreve o pesquisador.

Recuperação motora

Entre os principais resultados observados pelos pesquisadores está a recuperação da capacidade motora dos animais em cerca de 70%, oito semanas após as cirurgias. Os animas foram divididos em sete grupos experimentais, desde os que apenas tinham lesão na medula, até os que foram tratados com as células de Schwann combinadas com as duas substâncias. "A melhor recuperação da capacidade motora se deu justamente no grupo em que administramos as células de Schwann associada às duas substâncias", conta o professor.
Com estes resultados positivos, o pesquisador informa que seus estudos abrem um novo caminho no longo trajeto, que é a descoberta de terapias para o tratamento de pessoas com lesão medular. Segundo Pereira, experiências deste tipo em seres humanos ainda deverão levar algum tempo. "Apenas abrimos um espaço importante para que novas pesquisas sejam realizadas. Creio que em pouco tempo o Rolipram seja mais um medicamento no arsenal terapêutico em pacientes com lesão medular", calcula, antecipando que seus estudos ainda deverão prosseguir no Brasil, já que espera contar com o apoio de instituições de fomento à pesquisa científica.
Os estudos do professor Francisco Carlos Pereira foram desenvolvidos durante estágio de pós- doutoramento, com bolsa da FAPESP, e realizados no The Miami Project to Cure Paralysis da Universidade de Miami, em Miami, Florida, EUA, coordenado pela cientista norte-americana Dra. Mary Bartlett Bunge. Também teve a participação do cientista australiano Dr. Damien Pearse. O artigo assinado pelos cientistas, em que é descrito o avanço nessa área, acaba de ser publicado na revista científica Nature Medicine, dos EUA.

Antonio Carlos Quinto - Agência USP de Notícias. Fonte: Sentidos

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