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Terapia
celular: Luz no fim do tubo
O Senado Federal sinaliza autorização para o uso de embriões excedentes
congelados há mais de três anos em pesquisas de fins terapêuticos,
apesar da oposição da bancada religiosa, e renova a esperança para
tratamento de doenças crônicas e lesões medula.
Parece mágica, mas não é. Imagine uma célula capaz de transformar-se
em qualquer tipo de tecido do corpo humano - em perfeito estado.
Imagine que, por causa disso, a cura para o diabetes será mera questão
de tempo. Que a possibilidade de pessoas com lesões medulares recuperarem
os movimentos virará realidade e não mais um sonho de ficção científica.
E que doentes crônicos renais não terão mais de submeter-se a hemodiálise.
Tudo isso será possível graças ao uso de células-tronco embrionárias
no tratamento dessas e de outras moléstias.
A descoberta do potencial terapêutico de tais células criou grandes
expectativas para a comunidade científica. Renovou a esperança de
pacientes cujas doenças pareciam invencíveis ou tinham limitações
incontornáveis. Por outro lado, causou polêmica e despertou preocupação
no meio político e religioso. A polêmica está em torno de um conceito:
o embrião deve ou não ser considerado uma vida?
Biossegurança
A primeira grande discussão sobre o tema aconteceu em fevereiro,
quando a Câmara dos Deputados vetou o artigo da Lei de Biossegurança,
que autorizaria o uso de células-tronco embrionárias para fins terapêuticos.
A bancada religiosa da Câmara, que tem como representante o deputado
federal Adelor Vieira (PMDB-SC), fez campanha contra a aprovação
do artigo por considerar que o embrião é uma vida. Utilizá-lo para
pesquisas seria o mesmo que sacrificar alguns para salvar outros.
O veto ao artigo decepcionou cientistas e, principalmente, pacientes
que estavam confiantes na possibilidade de iniciar novas terapias.
"No dia da votação, acompanhamos toda as comissões", lembra a presidente
do Movimento em Prol da Vida, Andréa Bezerra de Albuquerque. A Movitae
é uma organização não-governamental que defende a liberação do uso
de células embrionárias para fins terapêuticos. "Fiquei sem saber
como contar para as pessoas sobre o veto. Era como negar a elas
a única esperança de cura", conta Andréa. A Movitae organizou uma
lista com cerca de 11.000 assinaturas de apoio ao uso das células
embrionárias. O abaixo-assinado foi enviado ao Congresso Nacional
como forma de pressão.
Consenso
No
início de junho, senadores e cientistas participaram de uma audiência
pública no Senado e voltaram a debater a questão, chegando a um
consenso: as pesquisas poderão ser realizadas desde que utilizem
embriões excedentes de clínicas de fertilização congelados há mais
de três anos. A clonagem terapêutica, processo em que se produz
embriões por meio da técnica de clonagem, continurá proibida. Segundo
a Agência Câmara, durante a audiência o senador Tasso Jereissati
(PSDB-CE) se comprometeu a apresentar emenda ao projeto permitindo
o uso de embriões excedentes. O projeto da Lei de Biosseguranca
deverá ser votado até julho, quando se encerra as atividades legislativas
do semestre.
Para a geneticista Mayana Zatz, a polêmica é conseqüência da falta
de informação. Ela é coordenadora do Centro de Estudos do Genoma
Humano da Universidade de São Paulo (USP) e seu trabalho é reconhecido
internacionalmente. Mayana recebeu o prêmio L'oreal-Unesco de 2004,
que é concedido anualmente apenas para cinco cientistas - um de
cada continente. A geneticista esteve presente na audiência pública
realizada no Senado e apresentou aos senadores os argumentos que
justificaram a importância da liberação do uso de embriões. Ela
demonstrou que os embriões excedentes das clínicas de fertilização
são organismos com potencial quase nulo para uma gestação e que,
por outro lado, têm potencial terapêutico imensurável. "Para a Ciência,
a vida é um ciclo", explica. "Um embrião se forma e se desenvolve
até originar um novo ser. Quando falamos em um embrião congelado
ou descartado, que não tem qualidade para formar uma vida, significa
que o ciclo dele acabou. No entanto, se a partir deste embrião forem
extraídas células-tronco com potencial de cura, ciclos de outras
vidas serão mantidos, como a de um jovem com uma doença muscular
degenerativa."
Comparação
A
pesquisadora afirma que a permissão do uso de células embrionárias
pode ser comparada à doação de órgãos. "Da mesma forma que uma família
doa os órgãos de uma pessoa falecida, os pais atendidos em clínicas
de reprodução assistida poderiam doar os embriões."
Na Profert, uma das 10 maiores clínicas de reprodução assistida
do país, cerca de 300 casais são atendidos por ano. "São produzidos
de 6 a 8 embriões por tratamento", afirma Dirceu Pereira, diretor
da Profert e secretário executivo da Sociedade Brasileira de Reprodução
Humana. "Estimulamos a produção de um número maior de embriões para
selecionar os morfologicamente mais adequados." Os embriões gerados
que não estão aptos a serem implantados no útero são descartados.
Os que estão aptos, mas não foram escolhidos na primeira tentativa,
são congelados. "Não incentivamos os casais a congelar os embriões,
porque a maioria acaba abandonando-os nas clínicas", diz Pereira.
"O descarte desses embriões é uma realidade. Um tesouro científico
não está sendo aproveitado."
Argumentos
A
dificuldade para conseguir aprovação legal para o uso de embriões
estava na existência de outro tipo de célula-tronco: as adultas,
que podem ser extraídas do cordão umbilical ou da medula óssea.
Quem era a favor do veto acreditava que os cientistas deveriam investir
nas pesquisas com as células-tronco adultas, que não são tão poderosas
quanto as embrionárias, mas que também têm potencial para se transformar
em vários tipos de tecido.
Durante a audiência pública, Mayana Zatz expôs que esse pensamento
é equivocado. Atualmente, a pesquisadora lidera na USP uma equipe
que se concentra na obtenção de células- tronco do cordão umbilical
para tratar doenças degenerativas como esclerose lateral amiotrófica
e distrofia muscular. Segundo Mayana, o ideal é que todas as possibilidades
sejam testadas. Ela afirma que abrir mão das células embrionárias
seria o mesmo que tirar a esperança de pacientes que não têm tempo
para esperar. "A expectativa de tempo para se colher bons resultados
com as células embrionárias é pequena. Além disso, existe um problema
público. Se o Brasil não desenvolver a terapia, terá de arcar com
custos internacionais para tratar seus pacientes, já que outros
países estão adiantados nesses estudos."
Não se nega a possibilidade de desenvolver terapias com as células-tronco
adultas. Experiências bem-sucedidas têm sido realizadas no Hospital
Pró-Cardíaco do Rio de Janeiro com células-tronco retiradas da medula
óssea. Pacientes vítimas de insuficiência cardíaca têm suas células
da medula transportadas para o músculo cardíaco. Essas células se
transformam em células cardíacas e renovam a região lesionada.
Aposta
na cura
É
preciso, no entanto, avaliar a capacidade de diferenciação contida
em cada tipo de célula. As células-tronco embrionárias não apresentam
diferenças entre si. Dentro do útero, dão origem aos mais de 200
tipos de tecidos que compõem o corpo humano. Esse fenômeno é que
transforma um embrião, que é menor que uma cabeça de alfinete, em
feto. Por esse motivo, os cientistas apostam na cura para diversos
tipos de doenças usando células embrionárias. Já as células-tronco
adultas são diferenciadas e têm capacidade para se transformar em
tipos limitados de tecidos, como o músculo cardíaco. Outro ponto
importante é que os pacientes com doenças genéticas não poderiam
se beneficiar de terapias com células-tronco da própria medula,
já que elas teriam as mesmas características genéticas. Este é o
caso de Maurizzio Fioretti, 42 anos, designer gráfico aposentado
que possui distrofia muscular de Becker, uma doença genética progressiva
que provoca paralisação dos músculos. "Minha esperança de cura está
nas células embrionárias", afirma. Fioretti descobriu que tinha
distrofia aos 12 anos. Atualmente, controla a progressão da doença
com medicamentos a base de corticóides. "A sensação de impotência
é enorme para quem está ao lado da pessoa que tem a doença", conta
a massagista Rita de Cássia, que é casada com Fioretti há quinze
anos. Rita e Maurizzio procuram divulgar a importância das células-
tronco. "Existe muito desconhecimento da maioria da população",
diz ele. "Por várias vezes estivemos com pacientes que poderiam
se beneficiar da terapia com células-tronco e que não sabiam do
que se tratava." Para o casal, a aprovação no Senado poderia ter
sido conquistada há mais tempo caso a mobilização e a divulgação
de informações fosse mais abrangente. Agora, trata-se de recuperar
o tempo perdido.
POSIÇÕES
NO DEBATE
CONTRA
Adelor
Vieira, deputado federal, PMDB- SC, presidente da Frente Parlamentar
Evangélica
Não vemos nenhum problema na terapia com células-tronco, desde que
não sejam utilizados os embriões humanos. Somos favoráveis ao avanço
da Ciência e achamos que governo deveria investir mais nessa área,
mas entendemos que a vida começa no momento da concepção e por isso
somos contra o uso de embriões. Permitindo a clonagem terapêutica
de embriões, nós estaremos abrindo precedentes para que a clonagem
humana aconteça.
Dom
Odilo Pedro Scherer, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)
A Igreja não é favorável porque isso significa a destruição de embriões.
Na nossa visão, até que se prove o contrário, o embrião é um ser
humano, com dignidade humana e que deve ser respeitado. Isso não
significa que a Igreja seja contra a Ciência. As pesquisas devem
continuar para que sejam usadas outras formas de tratamento com
as células-tronco adultas.
Dr.
Zalmino Zinermann, Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas
Somos contra tudo aquilo que agride a vida humana. Usar os embriões
seria um atentado contra o princípio da vida. Não se trata de um
tema simples, pois não estamos lidando apenas com aspectos religiosos,
mas com a essência espiritual do ser humano. Agora, é inegável que
chegará o dia em que teremos que lidar com um outro conceito de
concepção. Até o momento, do ponto de vista jurídico e espiritual,
a vida começa na concepção.
A
FAVOR
Rabino
Henry Sobel, presidente do Rabinato Congregação Israelita Paulista
"Não existe uma posição oficial da religião judaica, pois trata-se
de um fenômeno novo, que obviamente não consta das nossas leis milenares.
Minha opinião pessoal é que a clonagem terapêutica deve ser não
só permitida, como incentivada. Qualquer técnica que vise salvar
a vida humana é louvável. De acordo com o mandamento "pikuach nefesh"
do judaísmo, salvar uma vida se sobrepõe a todos os outros mandamentos.
Embora o embrião seja uma vida potencial e, como tal não pode ser
levianamente eliminado, não podemos privar a sociedade das inúmeras
possibilidades terapêuticas que representa a pretexto de protegê-lo.
Se levarmos às últimas conseqüências a defesa de tudo o que é vivo,
não poderemos nos alimentar de animais e plantas. O uso de embriões
para fins terapêuticos é mais um destes casos que exigem opção ética.
Senador
Mozarildo Cavalcanti, PPS-RR (discurso no Senado)
O Brasil e outros países que proibirem as pesquisas com células-tronco
embrionárias pagarão o preço do atraso com duas moedas: a primeira
será econômica, pois a tecnologia necessária para a aplicação das
terapias não será barata; e a segunda moeda se constituirá na perda
de nossos melhores cérebros para os países que mais avançarem nessas
pesquisas. Não sou um defensor ferrenho da Ciência pela Ciência,
não obstante minha formação em Medicina. A ciência deve submeter-se
aos princípios éticos de uma sociedade. O que não é admissível,
no entanto, é que a Ciência se submeta aos ditames do preconceito,
da desinformação e da ignorância.
Claudia
Gisele Pinto - Fonte: Revista Sentidos
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