Cão guia: tão útil e tão raro

Só há dois lugares no país que treinam cães guias para deficientes visuais

Eles dão aos donos mais independência e segurança, aumentando sua auto-estima. Os cães guias de deficientes visuais substituem a bengala ou a ajuda de outras pessoas. Mas, para os mais de 2 milhões de deficientes visuais que vivem no Estado de São Paulo (dado do IBGE), só existem seis cães guias regularmente "formados", quatro deles treinados nos EUA e na Itália.
No Brasil inteiro, há duas instituições que fazem o treinamento de cães guias, uma em São Paulo, outra no Distrito Federal. Elas nada cobram, mas, como não recebem patrocínio, fazem treinamento em pequena escala, e a fila pode ser longa, de até dois anos. Alguns deficientes conseguem se cadastrar em entidades treinadoras no exterior, mas precisam pagar ou encontrar quem subsidie os custos da viagem.
No mercado brasileiro, reina a informalidade. Não há entidade, norma ou governo para credenciar ou fiscalizar os treinadores - o que é um perigo. "A gente entrega a vida na mão do cão, não dá para confiar em qualquer adestrador", diz José Oliveira Justino, do Conselho Estadual para Assuntos das Pessoas Portadoras de Deficiência. Justino não tem cão guia.
"Há instituições aqui que vendem 'filhotes de cão guia', como se o animal já nascesse treinado. As pessoas têm que ficar alertas", afirma Thays Martinez, presidente do Iris (Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social). Para se proteger, o deficiente deve checar as referências dos treinadores - se são filiados a alguma fundação internacional e onde foram habilitados.

Treinamento
Graças a uma lei estadual, os cães guias têm direito de entrar em qualquer ambiente, público ou privado. Como olhos de seus donos, devem ficar atentos e à disposição 24 horas por dia, além de se comportar com discrição. Os animais treinados desviam de obstáculos - mesmo os aéreos, como orelhões - atravessam ruas, memorizam trajetos usuais. São capazes de levar os donos, por exemplo, até a porta do trabalho e, dentro do prédio, localizar o elevador, o banheiro, o bebedouro. Reconhecem um lugar novo em poucos dias, facilitando a adaptação e evitando que o deficiente dependa da ajuda de terceiros.
Para não atrapalhar sua concentração, ninguém deve alimentar ou brincar com o animal durante o seu "expediente", nem pegar no braço do dono: quando isso acontece, o cão entende que há outro guia e deixa de exercer a função. Os animais de porte médio ou grande são os mais adequados para o serviço (veja quadro). O labrador é, de longe, o campeão. "A vantagem dessa raça é que ela é calma e inteligente. Se alguém pisa na pata de um labrador num ônibus, ele a tira do lugar e fica quieto, diferente da possível reação de um pastor alemão", explica Nelson Boiteux, coordenador administrativo do Projeto Cão Guia de Cego, iniciativa do Integra (Instituto de Integração Social e de Promoção da Cidadania), no Distrito Federal.
O golden retriever também é uma raça muito utilizada para esse trabalho. Mas o mais comum é cruzá-lo com o labrador, para driblar a característica um pouco medrosa do golden. E medo é algo que os cães guias não podem ter. Eles têm a responsabilidade de defender os donos dos perigos das ruas e são capazes até de desobedecer a uma ordem que coloque o deficiente visual em risco.
Mas ensinar tudo isso aos cães leva tempo, e as entidades, que já são poucas no Brasil, cuidam da criação, seleção e treinamento dos animais. Algumas semanas depois do nascimento, os filhotes candidatos vão morar com uma família temporária, cuja função é apresentá-los ao maior número de estímulos externos, contribuindo para sua sociabilização.
Com um ano, se separam dessas famílias e vão para o centro de treinamento, onde são submetidos a uma avaliação para medir reações de agressividade, ansiedade e autocontrole - diante de um gato, por exemplo.
Os aprovados passam por um treinamento que dura de três a seis meses, em que aprendem a colocar o próprio arreio quando este é sacudido pelo dono e a se comportar como "profissional" apenas quando está arreado. Sem a guia, o cão relaxa. Todos os comandos são ensinados na base da repetição e dos estímulos positivos, como carinho e recompensa com ração.
A parte mais importante vem por último: a verificação da compatibilidade do cão com seu novo dono. O deficiente visual passa um mês com o cão, no ambiente em que vive normalmente, observado pelos treinadores. A confiança do dono no cão é essencial. Se ela não existir ou se as personalidades não combinarem, nada feito. Troca-se a dupla.
O cão guia trabalha duro e, como os humanos, tem direito à aposentadoria. Entre oito e dez anos, o animal mostra sinais de cansaço, a vontade de trabalhar diminui e ele tem que pendurar o arreio. O deficiente precisa se adaptar a outro cão, e o aposentado deve mudar de casa.

Os mais indicados
Labrador retriever - Carinhoso, ativo, seguro, corajoso e de fácil aprendizado. Late pouco, nunca é agressivo, tem bom faro e memória visual muito apurada. É a raça perfeita para o trabalho e a mais utilizada
Golden retriever - Observador, ativo, inteligente, amoroso e apegado ao dono. Tem memória e faro bons. Pode ser muito medroso para trabalhar como guia
Pastor alemão - Obediente, leal, inteligente, corajoso, sociável e forte. Alguns treinadores desaconselham seu uso como guia por seu instinto vigilante e de luta, que às vezes gera reações agressivas
Pastor branco - Tem características parecidas com as do pastor alemão: grande disposição, é inteligente e curioso, mas pode ser agressivo às vezes.

Serviço

Integra (DF), filiada à Fundação Mira (Canadá), tel. 0/xx/61/442-7900, http://www.caoguia.integradf.org.br/.
Associação Cão Guia de Cego (SP), co-ligada à Guide Dog Foundation for the Blind, americana sem filiação internacional. http://www.vidadecao.com.br/cao/index2.asp?menu=caoguia.htm.
Iris (SP). Não treina cães, mas forma grupos de deficientes para buscar animais no exterior e arca com os custos.
http://www.iris.org.br/.

Cristina Fibe - Fonte: Revista da Folha de S. Paulo - Rede Saci

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