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Depressão infantil: como lidar
Por
meio de entrevistas, antropóloga analisou como famílias de baixa renda
e médicos encaram o surgimento e o desenvolvimento da doença.
A intervenção médica e terapêutica em casos de depressão infantil pode
se tornar mais adequada às diferentes realidades. Uma pesquisa de doutorado
realizada pela antropóloga Eunice Nakamura busca auxiliar profissionais
da área da saúde a compreenderem que há outras noções e significados
da doença. A pesquisadora investigou as diferentes maneiras com que
médicos, veículos de imprensa e famílias de baixa renda encaram o transtorno.
"Os familiares de crianças deprimidas costumam agir como um 'filtro'
à investigação psiquiátrica", afirma a antropóloga, que apresentou seu
estudo na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)
da USP. De acordo com a pesquisadora, as famílias fazem um "arranjo"
a partir do que encontram na imprensa e no discurso dos psiquiatras.
"Cada grupo tem sua própria lógica de compreensão, embora todos repitam
os conceitos científicos", aponta.
Eunice analisou artigos publicados na mídia impressa entre 1999 e 2003
e entrevistou médicos e familiares de crianças com depressão. Segundo
ela, a rede de informações disponível a respeito da depressão infantil
mescla conceitos científicos e dados mais simplificados. A mídia, ao
mesmo tempo em que transmite definições técnicas, simplifica certos
dados, "permitindo que uma noção de doença se torne comum". "É preciso
considerar o papel da imprensa de levar informações às pessoas leigas.
Para isso, a simplificação é necessária", destaca.
Rol
de problemas
Eunice
consultou nove famílias de crianças com depressão, cujas idades variavam
entre 6 e 12 anos. Todas elas recebiam atendimento no Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina (HC/FM) da USP e eram moradoras da periferia
de São Paulo. A pesquisadora obteve informações a respeito do modo com
que os familiares encaravam o problema da depressão infantil, o comportamento
da criança e sua adequação ao tratamento médico.
"Os familiares costumam inserir a depressão infantil no rol de seus
problemas e insatisfações, como dificuldades econômicas, desemprego
e acesso precário a serviços e lazer", conta Eunice. "As famílias demonstraram
um incômodo perante o comportamento da criança, que se transforma em
mais um problema com o qual se deve lidar". Para a antropóloga, isso
demonstra que a noção científica de depressão, embora aceita, não é
a única forma de se explicar o desenvolvimento da doença. Afinal, a
depressão infantil não é apenas colocada entre os diversos problemas
enfrentados pela família, mas também atribuída a essa série de dificuldades.
Filtro
Eunice consultou oito psiquiatras do HC envolvidos no tratamento dessas
crianças e concluiu que os médicos vêem nos familiares uma espécie de
"filtro de informações". "O médico se encontra num embate entre a literatura
científica e a prática, na qual a família percebe a depressão infantil
de uma forma particular", explica.
Segundo os médicos entrevistados, os familiares muitas vezes confundem
os sintomas da depressão com comportamentos descritos como "manha" ou
"birra". Por isso, o tratamento fica sujeito ao "grau de tolerância
da família com relação ao comportamento da criança. O médico, então,
procura intervir nesse comportamento, por meio de medicamentos e psicoterapia,
a qual possibilita um maior acesso ao paciente".
Entretanto, muitas das crianças, devido a problemas financeiros, não
são submetidas à psicoterapia, pois o deslocamento numa grande cidade
demanda gastos muitas vezes incompatíveis com o orçamento de famílias
da periferia. "Para os médicos entrevistados, a depressão está vinculada
à noção de mau funcionamento e, conseqüentemente, à necessidade de ajuste
das crianças, mas essa intervenção é muitas vezes restrita em função
da realidade vivida pelas famílias", ressalta Eunice. Reportagem Flávia
Souza.
Mais
informações: (0XX11) 4746-2664, com Eunice Nakamura; e-mail: eunice_nakamura@hotmail.com.
Fonte: Agência USP de Notícias - Site Sentidos (www.sentidos.com.br)
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