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Por que tanta reação à cartilha da inclusão?
Eugênia Augusta Gonzaga Fávero*
Publicada
em setembro de 2004, a cartilha “O acesso dos alunos com deficiência
às classes e escolas comuns da rede de ensino”, já
está com seus primeiros 60.000 exemplares praticamente esgotados.
Feita com todo o carinho por profissionais dedicados, vem sendo
recebida e festejada por pais, professores e outros profissionais
interessados em por que e como fazer inclusão escolar.
A inclusão ali proposta só pode ser “com responsabilidade”,
é claro. Qualquer coisa diferente disso não é
inclusão, é desrespeito ao ser humano. Nenhum daqueles
que assinaram ou apoiaram a edição da cartilha trabalharia
em algo que não tivesse a dignidade das crianças e
adolescentes, com ou sem deficiência, como meta e pressuposto.
Eu, por exemplo, sou mãe de duas crianças em idade
escolar, uma delas, com Síndrome de Down. Nessa qualidade,
eu jamais deixaria de lado o bem-estar físico e emocional
deles, e sei muito bem o que isso significa.
A cartilha contém uma abordagem nova para a inclusão.
Mais do que dizer que se trata de idéia extremamente positiva,
que a convivência escolar entre alunos com e sem deficiência
é muito benéfica para ambas as situações,
a cartilha esclarece que a inclusão educacional não
é só uma idéia, é um direito humano,
que pode ser resumido como o simples direito de não ser recusado.
Informa sobre tudo o que consta na legislação brasileira
como base do direito de “todas” as crianças e
adolescentes de terem acesso ao ensino fundamental, que tem como
pressuposto a diversidade em sala de aula. Consta ainda que o direito
ao ensino fundamental é indisponível no tocante a
crianças de 07 a 14 anos e, por isso, pode ser oposto até
mesmo ao desejo dos pais. Nos parece que é nesse ponto que
residem as dificuldades de entendimento. Tais dificuldades são
compreensíveis, pois a resistência ao novo é
muito comum. Além de novo, o tema é muito delicado.
Estamos lidando, muitas vezes, com a “dor” das pessoas.
Infelizmente, isso tudo tem sido amplamente explorado por aqueles
que sempre são contrários às propostas efetivas
de inclusão escolar de alunos com deficiência.
A cartilha excepciona os casos graves (sem inteiração
com o ambiente externo, ou com total inibição diante
do conhecimento), fala em prazos para as mudanças necessárias,
parcerias entre ensino comum e especial para atendimento em conjunto
do aluno que necessitar, na importância e na experiência
das escolas especiais. Mesmo assim o seu texto tem sido distorcido,
omitido, já vimos até a publicação de
trechos seus com inversão de parágrafos. Tudo de forma
a tentar desqualificar um documento que só tem a proposta
de promover algum avanço no cenário brasileiro de
inclusão escolar. E está promovendo: todos os dias
recebemos retornos positivos e pedidos de novos exemplares. É
isso. Por mais que as pessoas resistam ao “novo”, por
mais que essa resistência bem intencionada seja indevidamente
explorada, por mais que queiram a inclusão apenas como uma
idéia, o fato é que “nenhum exército
pode resistir a uma idéia cujo tempo chegou” (Victor
Hugo). Nós temos certeza de que o tempo da inclusão
chegou...
*Artigo escrito a pedido e para a AME. Está autorizada
publicação, desde que citada a fonte. A autora
é procuradora da República em São Paulo Capital,
autora do livro Direitos das pessoas com deficiência: direito
à igualdade na diversidade, pela WVA Editora, e co-autora
da cartilha “O acesso dos alunos com deficiência às
classes e escolas comuns da rede de ensino”, distribuída
pela Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão, órgão
do Ministério Público Federal, disponível em
www.prsp.mpf.gov.br.
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