O direito à diferença nas escolas

Maria Teresa Eglér Mantoan*

Estamos assistindo neste momento a mais uma querela entre os que defendem as escolas dos diferentes e os que lutam por uma escola das diferenças.

O epicentro da questão é sempre o fechamento das escolas especiais, ou mais especificamente de um dos tipos de escolas dos diferentes, diante dos avanços trazidos pela educação inclusiva.

A Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu respectivo Protocolo Facultativo foram ratificados pelo Congresso Nacional em 09/07/2008 pelo decreto legislativo nº 186/2008 e todos os seus artigos são de aplicação imediata. No seu artigo 24 é reconhecido o direito à educação das pessoas com deficiência, devendo os Estados Partes assegurar a esses alunos um sistema educacional inclusivo, em todos os seus níveis.

Como garantir o direito à diferença nas escolas, se ainda entendemos que as diferenças estão apenas em alguns alunos e são negativamente compreendidas e diagnosticadas como problemas, doenças, situações indesejáveis e sem volta?

Questionar os processos de diferenciação entre escolas e alunos, que decorre da oposição entre a identidade normal de alguns e especial de outros, é uma das garantias permanentes desse direito.

Nos sistemas educacionais inclusivos os alunos não são identificados como normais e especiais e suas escolas reúnem os alunos tais quais eles são: únicos, singulares, mutantes, pessoas que diferem umas das outras, que não conseguimos conter em conjuntos definidos por um atributo que elegemos para diferenciá-los. São escolas das diferenças e ponto final.

A diferença é sempre individual e difere infinitamente. Defender a diferença, com base na igualdade, como acontece nas escolas dos diferentes, em que os alunos são iguais por uma deficiência ou por serem “normais”, comuns, ou caberem dentro de uma categoria em que queiramos enquadrá-los - isto é tudo o que os defensores da inclusão não podem admitir. E a esquerda precisa ficar atenta a essa diferenciação de base igualitária, se não quiser cair nas armadilhas do racismo e de outras defesas pautadas nas diferenças coletivas e nas desigualdades.

*Professora da Universidade Estadual de
Campinas – Faculdade de Educação
Laboratório de Estudos e pesquisas em
Ensino e Diferenças – LEPED - Unicamp