Gagueira

Carla Maria Colombo*

Gaguejar é pronunciar as palavras com hesitação, repetindo, prolongando as sílabas ou bloqueando os movimentos articulatórios no momento em que o fluxo tem que ser iniciado. A gagueira é a mais comum desordem de fluência da fala. Trata-se de um assunto complexo, estudado amplamente por fonoaudiólogos, médicos e psicólogos. No entanto não há um consenso sobre suas causas. Existem diversas correntes para tentar justificá-la pelos caminhos da hereditariedade, psicológicos, orgânicos e sociais.

Segundo a doutora Sílvia Friedman, fonoaudióloga, “a produção da fala com gagueira é determinada pela combinação de várias condições”. Algumas destas estão restritas ao corpo, como no caso da gagueira relacionada à dispraxia oral, quadro neurológico que leva à dificuldade na produção dos sons da fala e sua sequencialização em sílabas ou palavras. Outras ligadas ao psiquismo, tanto na relação pensar/ falar, quanto na emoção e sentimento, ou ainda a combinação destes fatores, levando-se em conta o aspecto social interferindo sobre os mesmos.

Dentro desta mesma abordagem, a gagueira é dividida em dois tipos: a natural e a sofrimento. O tipo natural nada mais é do que os tropeços que cometemos ao falar, seja por um processo de organização do pensamento (a busca da palavra correta para expressar uma idéia), seja pelo complexo quadro de motricidade que engloba o falar (movimentos refinados e precisos que realizamos motoramente ao falar, e que estão sujeitos a falhas eventuais), ou ainda como principal causa da gagueira natural, a tensão emocional que afeta a organização do pensamento e a motricidade.

Geralmente a manifestação da gagueira não é bem aceita socialmente, e quem produz uma fala disfluente, tenta reprimi-la, estando ai a principal causa para o desenvolvimento do segundo tipo, a gagueira sofrimento.

Percebendo a gagueira como algo indesejável, a pessoa que gagueja busca recursos para falar bem, prejudicando a espontaneidade da ação, causando maior disfluência e tensão. Quanto mais se esforça para falar bem, mais gagueja e assim instala uma autoimagem negativa de mau falante. Observa-se que nem toda a produção de fala do gago é disfluente. Ao falar para si próprio, cantar, recitar poemas, interpretar um papel de bom falante e até ao falar com animais, a pessoa consegue uma boa fluência, o que confirma a hipótese de haver, do ponto de vista biológico, integridade na produção da fala.

Sendo assim o tratamento fonoaudiológico está voltado á construção de um novo papel, relacionado ao fim da imagem de mau falante. Para isto é necessário que a pessoa perceba como produz a gagueira, as situações em que gagueja, como prende o ar e a força desnecessária que utiliza, bloqueando o fluxo natural. Vivenciar a boa articulação e os momentos de fluência, resgatam a confiança na capacidade de se expressar.

* Fonoaudióloga da AME