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O profano e o sagrado no pai da Laramara

Victor Siaulys surpreende desde quando apresenta seu cartão de visitas. De um lado, mostra seu cargo no Aché Laboratórios Farmacêuticos: Presidente do Conselho de Administração; de outro, seu cargo na Laramara Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual: Presidente do Conselho Deliberativo. Essa dupla atuação explicita, como ele mesmo define, suas faces profana e sagrada: de um lado, o "mercenário", como um dos donos do laboratório, buscando conquistar e solidificar seu espaço no mercado internacional de drogas industrializadas e, de outro, o "missionário", idealista, buscando a autonomia e a inclusão social das pessoas com deficiência visual. Filho de imigrantes lituanos, é pai de uma filha, Lara, hoje com 26 anos, a caçula de três filhos, que nasceu cega. O nome da filha compõe a denominação da instituição, da qual é fundador, ao lado do nome da esposa, Mara. Formado em Direito, pela Universidade de São Paulo, está com 68 anos e já venceu três. É também empreendedor no ramo hoteleiro e imobiliário. Confira a entrevista exclusiva ao Jornal da AME:

AME - Qual é a relação entre o empresário e o missionário, duas facetas numa mesma pessoa?
Victor Siaulys - O Aché Laboratórios nasceu em 1966 e, a partir da criação da Laramara, em 1991, sua postura mudou radicalmente. Surgiram vários recursos que antes não existiam, como a criação de um departamento de Recursos Humanos substituindo o tradicional DP, o Departamento Pessoal que todos morriam de medo. Não havia uma assistente social, ou seja, só contávamos estritamente com aquilo que a lei exigia. Havia somente uma creche oferecida aos funcionários, mas era a mais barata possível, para atender somente a exigência legal. Após a Laramara, começamos a desenvolver um ambulatório magnífico, privilegiando a população feminina, maioria na empresa, além de oferecer Fisioterapia, para aqueles que apresentavam algum problema, principalmente na segunda-feira, após o final de semana pintando a casa ou exagerando na partida de futebol, além de Odontologia, entre outros. Quando passei a me envolver com o trabalho voluntário na Laramara, o Aché passou a ser mais humanitário. Então, houve, principalmente nos últimos anos, uma fusão informal dos dois, tanto que transferi meu escritório para a sede da Laramara, na Barra Funda. Não dá mais para separar um de outro. Eu sou um indivíduo bastante humilde, que comecei como propagandista da área farmacêutica. Montamos a empresa e a Lara nasceu em 1978. São 12 anos de luta e crescimento espantoso. É considerada a maior empresa de capital nacional da América Latina. No Brasil é a primeira no segmento farmacêutico. Há outras que lideram em termos de faturamento, devido a produtos com preços elevados, mas o Aché lidera em vendas de unidades. A empresa nasceu com muito pouco capital inicial e cresceu assustadoramente. A gente acaba se julgando um todo-poderoso, infalível e invencível, até que veio o golpe no nascimento de minha filha.

AME - Qual foi sua reação quando se deparou com o nascimento de uma filha cega, após ter tido dois filhos sem deficiência? 
Siaulys - A pior possível. Isso aconteceu em 1978 e minha reação foi de estupor, de desespero. A Lara nasceu absolutamente fora de programação, uma vez que eu era vasectomizado. Fiz a cirurgia porque sempre tive uma vida muito louca. Minha mulher teve uma trombose devido aos anticoncepcionais e não hesitei em fazer a operação. Naquela época era muito tranqüilo e não pensava em ter mais filhos, mas quando se faz esse tipo de operação, deve-se fazer um controle periódico de esperma, para avaliar o índice de espermatozóides, mas eu não o fazia. Em uma viagem para a Europa, onde fiquei cerca de 30 dias, ao final minha mulher foi encontrar-me na Itália e ficamos mais um pouco. Acho que o período de inatividade acumulado não foi contido pela vasectomia e de uma relação surgiu a Lara sem estar no programa. Além disso, a Mara tinha mais de 40 anos e se tratava de uma gravidez de risco. Também um mioma uterino que se expandiu, precipitou a vinda da minha filha, que nasceu aos seis meses e meio de gestação, pesando um kg e meio. Ela sobreviveu a tudo, após 60 dias numa incubadora. Senti profundamente o baque. Na ocasião, me escondia... Lembro que, em Nova Iorque, uma vez, me peguei entrando numa igreja e rezando, coisa que não faço, pois não gosto de igreja. Entrei, rezei, chorei. Entrei em desespero. Na época usava muito projetor para fazer palestras e utilizava transparências coloridas. Às vezes, projetava no olho dela para ver se ela se familiarizava com cores; fazia isso sempre escondido das pessoas. Ia com o dedo perto do olho dela para ver se ela reagia. Sofri muito, foi muito duro.

AME - O que o senhor buscou como solução na época?
Siaulys - A Lara foi vítima de retinopatia da prematuridade, uma lesão da retina decorrente de excesso de oxigênio, em ambos os olhos, deixando-a cega. Como atuo na área farmacêutica, procuro estar sempre bem informado sobre tudo o que há na área da Medicina. Li muito sobre a doença dela, que ainda continua ocorrendo, mesmo em países desenvolvidos, gerando seqüelas em bebês pré-maturos, que não completaram sua formação. Na época, procurei um especialista, em Miami (USA), um dos melhores da área, que recomendou que não fizesse cirurgia, antecipando que ela não iria enxergar, iria ver somente luzes e sombras. De fato, foi isso o que ocorreu, mas hoje ela não distingue a diferença entre ambas, se está claro ou escuro.

AME - O que mudou na sua vida, desde então?
Siaulys - Mudou tudo, total e radicalmente. Isso se reflete claramente na minha empresa. Se for feita uma pesquisa em Guarulhos, onde está sediado o Aché, sobre as cinco empresas mais admiradas, seguramente vamos estar entre as primeiras. Antes vivíamos num mundo irreal, isolado, distante. E quanto mais alto se está na hierarquia, pior ainda, pois se fecha numa redoma de cristal e não há ninguém para criticar. Você se sente o dono do mundo, um Deus e, de repente, acontece algo que mostra que não é bem assim. Tudo mudou. Eu diria que me rehumanizei, transformei totalmente minha atitudes. Nós temos um hotel, o Unique, muito elegante, em São Paulo e nesse mundo empresarial, hoje estou muito mais próximo das pessoas, que em geral têm medo do toque na pele e eu forço isso a todo momento, eu beijo todos os meus amigos. Antes, claro que não era assim. Qualquer amigo meu que me encontra eu beijo, e não pense que eu sou v... Essa é a forma de mostrar carinho, atenção, desprendimento, despreconceito, desarme. Expor-se sem medo. Há uma frase que gosto: a gente tem o trabalho profano e o lado sagrado, que é quando a gente se desarma, perde a vergonha. Em um empresário não fica muito bem beijar a moça do café, beijar o amigo que passa, não faz parte do figurino. O estilo do empresário é aquele distante, isolado. Uma vez eu encontrei com o Setúbal (o presidente do Itaú), no elevador do prédio em que moro, e eu estava todo à vontade, com cesta de feira na mão e ele estava com a maleta de trabalho, em pleno sábado de manhã, e eu brinquei com ele: "quer trocar?". Isso antes não era assim. Eu também vivia mergulhado somente no meu lado empresarial.

AME - Antes da Lara, como era sua visão e seu contato em relação às pessoas com deficiência?
Siaulys - Eu nunca tinha visto um cego na minha vida. Para falar a verdade, acho que tive um contato uma vez que me marcou muito. E foi em torno de 30 anos de idade, hoje estou com 68. Trabalhava como propagandista, ainda não era empresário, e encontrava-me nas proximidades do Hospital das Clínicas (da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Estava passando e vi um rapaz de origem japonesa, com uma bengala. Eu tentei ajudá-lo e ele me repeliu. Continuei caminhando um pouco com ele e começamos a conversar. Ele me contou que estava fazendo um exercício de reabilitação no Hospital das Clínicas, reconhecendo a área em torno. Aí houve uma coisa dramática: eu lhe perguntei como tinha ficado cego, e a resposta foi: "tentei suicídio". Ele revelou que tentou se matar com um tiro nas têmporas e sobreviveu, mas ficou cego. A grande pergunta é: será que valeu a pena? A nossa visão responde por, pelo menos, 80% de tudo o que a gente faz na vida. Na época, pensava que a perda da visão representaria tudo o que de mais trágico poderia acontecer. Mas esse meu convívio permanente com pessoas cegas tem me mostrado um mundo diferente e enriquecedor.

AME - Qual é sua avaliação sobre a participação da pessoa com deficiência na sociedade?
Siaulys - Hoje, o Censo do IBGE aponta o índice de 15% da população com algum tipo de deficiência. Qualquer país minimamente inteligente não pode se dar o luxo de desprezar esse percentual de sua população. Teoricamente, representam dois milhões de pessoas. E existem hoje tecnologias que permitem muita coisa, que com o movimento dos olhos aciona-se um computador. Um exemplo é aquele cientista Steve Hawking, que prova para nós que não existem limitações para quem possui deficiência. Há a Helen Keller, que começou como um bichinho selvagem que ninguém acreditava que pudesse ser educada, até que a Anne Sullivan fosse a professora dela e a fizesse a maior oradora e a mulher mais admirada dos Estados Unidos, muito embora tivesse deficiência. Há um caso de um menino que possui uma doença auto-imune no fígado, que eu cuido pessoalmente. Ele estava condenado a algumas semanas ou meses de vida. Duas vezes a mãe ouviu isso dos médicos e isso foi há quatro anos. Ele é vulnerável a qualquer infecção, é um paciente de alto risco e vive às voltas com medicamentos. Pude também acompanhar o caso de um rapaz cego que atendemos, que se casou com uma moça também cega. Eles se conheceram na Laramara, se casaram e tiveram uma filha sem deficiência. Deus colocou no colo daquelas duas pessoas cegas uma criança que enxerga. Colocou na filha os olhos que faltavam a eles. Eles eram inúteis, pesos mortos dentro de suas casas e acabaram construindo uma vida digna, uma vida de casal, uma família, são realizados pessoalmente e integrados socialmente.

AME - E a Lara? O que ela vem fazendo e como está? 
Siaulys - A Lara é muito difícil de se encontrar. Ela está hoje com 26 anos e tem uma vida bastante ativa. Terminou a Unicamp, mora conosco, mas passa a maior parte do tempo na universidade, pois está fazendo duas pós-graduações, além do curso de Literatura. Ela é formada em Música e está fazendo testes em alguns locais porque quer dar aula de Inglês, mas tem tido algumas respostas preconceituosas. Ela tem o inglês perfeito e tem obsessão por ser professora. O motorista a leva para Campinas, ela fica três, quatro dias, e depois volta. Ela está muito bem.

AME - Qual é sua mensagem para nossos leitores? 
Siaulys - A grande mensagem, é "nunca se desesperar". A cada porta que se fecha, uma outra se abre. Não existem absolutamente barreiras que o homem não possa superar. Exemplos não faltam

 
 
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19.01.2019