Como a linguagem do dia a dia pode ofender pessoas com deficiência

Como a linguagem do dia a dia pode ofender pessoas com deficiência

Um artigo recente da romancista e ativista pelos direitos dos surdos, a norte-americana Sara Novic, publicado originalmente no site BBC Worklife, aborda a questão do capacitismo em nossa sociedade, com importantes insights a respeito do que podemos fazer para combater o problema.

Leia a seguir (para acessar a versão original desta reportagem, em inglês, clique aqui). 

“Gosto de ser surda. Gosto do silêncio, assim como da rica cultura e da língua que a surdez me proporciona. Quando vejo a palavra ‘surdo’ publicada, me vem à tona um sentimento de orgulho pela minha comunidade. É algo que fala comigo, como se eu estivesse sendo abordada diretamente, como se chamassem meu nome. Então, sempre dói quando sou lembrada de que, para muitos, a palavra ‘surdo’ tem pouco a ver com o que eu mais amo — na verdade, suas conotações são quase sempre negativas. Por exemplo, na imprensa do mundo todo não é raro ler que determinado governo ou autoridade “se fez de surdo”. Este tipo de linguagem “capacitista” (que discrimina pessoas com deficiência) é onipresente em bate-papos. Perguntar se alguém “está cego” porque não viu algo, dizer que “deu uma de João sem braço” ou que fulano tem “problema mental” para ofender, chamar um chefe de “psicopata” ou “bipolar”, falar para alguém “deixar de ser retardado” — são apenas alguns exemplos. E, na maioria das vezes, as pessoas que proferem essas frases não têm a intenção de machucar ninguém — em geral, elas não têm a menor ideia de que estão fazendo algo nocivo.

No entanto, para pessoas com deficiência como eu, essas expressões comuns podem ser microagressões. Por exemplo, “se fazer de surdo” mostra que a maioria das pessoas associa a surdez com a ignorância intencional (mesmo que não seja conscientemente). Porém, muito mais do que insultos isolados, expressões como essas podem causar danos reais e duradouros às pessoas que se sentem desconsideradas por essas palavras e expressões — e até mesmo para quem as utiliza em conversas diárias.

Sara Novic discute o processo da escrita com alunos da Rocky Mountain Deaf School no Colorado, nos EUA

Não é um problema pequeno

Cerca de 1 bilhão de pessoas em todo o mundo — 15% da população global — tem algum tipo de deficiência documentada. No Brasil, segundo o Censo 2010 do IBGE, quase um quarto da população declarou ter algum grau de dificuldade em pelo menos uma das habilidades investigadas (enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus) ou possuir deficiência mental/intelectual. A incidência é semelhante nos EUA e no Reino Unido. Apesar desses números, as pessoas com deficiência sofrem discriminação generalizada em quase todos os níveis da sociedade. Esse fenômeno, conhecido como ‘capacitismo’, pode assumir várias formas. O capacitismo pessoal pode ser um xingamento ou ato de violência contra uma pessoa com deficiência, enquanto o capacitismo sistêmico se refere à desigualdade que as pessoas com deficiência vivenciam como resultado de leis e políticas. Mas o capacitismo também pode ser indireto, até mesmo não intencional, na forma de microagressões linguísticas. Por mais que a gente goste de pensar que é cuidadoso na hora de escolher as palavras, o capacitismo linguístico está difundido no nosso vocabulário. Os exemplos estão por toda parte na cultura popular, e provavelmente você mesmo já usou algumas expressões. Muitas vezes, o capacitismo linguístico surge nas gírias que usamos, como falar para alguém “deixar de ser retardado” ou dizer que “fulano tem TOC” (transtorno obsessivo-compulsivo).

Embora possam parecer insultos ou exclamações casuais, ainda assim causam danos. Jamie Hale, CEO da Pathfinders Neuromuscular Alliance, instituição de caridade do Reino Unido voltada e dirigida por pessoas com doenças neuromusculares, observa que o potencial de dano existe mesmo se as palavras não forem usadas contra uma pessoa com deficiência especificamente. “Há uma sensação de que, quando as pessoas usam a linguagem capacitista, estão buscando maneiras de inferiorizar”, diz Hale. “Muitas vezes não é uma tentativa consciente de prejudicar as pessoas com deficiência, mas ajuda a construir uma visão de mundo na qual ser uma pessoa com deficiência é [negativo].”

Usar uma linguagem que equipara a deficiência a algo negativo pode ser problemático de várias maneiras. Em primeiro lugar, essas palavras oferecem uma imagem imprecisa do que realmente significa ser deficiente. “Descrever alguém como ‘aleijado’, ‘incapacitado’ é dizer que ele está ‘limitado’ [ou] talvez ‘aprisionado`. Mas não é assim que eu me sinto”, afirma Hale. Usar a deficiência como metáfora também é uma forma imprecisa de expressar o que realmente queremos dizer. A frase ‘se fazer de surdo’, por exemplo, perpetua estereótipos e, ao mesmo tempo, mascara a realidade da situação que descreve. Ser surdo é um estado involuntário, ao passo que as pessoas que “se fazem de surdas” diante de determinados apelos estão fazendo uma escolha consciente de ignorar essas solicitações. Rotulá-las como ‘surdas’ as enquadra como passivas, ao invés de pessoas ativamente responsáveis ​​por suas próprias decisões. Hale acrescenta que usar a deficiência para designar algo negativo ou inferior reforça atitudes e ações negativas e alimenta os sistemas mais amplos de opressão existentes. “Construímos um mundo com a linguagem que usamos e, enquanto nos sentirmos confortáveis ​​com essa linguagem, continuaremos a construir e reforçar estruturas capacitistas”, diz.

O que isso quer dizer?

Se o capacitismo linguístico é tão prejudicial, por que é tão comum? Por que alguém que nunca insultaria propositalmente uma pessoa com deficiência diretamente ainda encontra expressões capacitistas em seu vocabulário? O capacitismo linguístico, como o coloquialismo, funciona como qualquer outra gíria: as pessoas a repetem porque ouvem outras dizerem, uma imitação que aparentemente sugere um uso sem discernimento. Porém, de acordo com DW Maurer, professor de linguística da Universidade de Louisville, nos EUA, embora qualquer pessoa possa criar uma gíria, a expressão só “ganhará popularidade conforme a unanimidade de atitude dentro do grupo”. Isso sugere que os jargões capacitistas são onipresentes porque, em algum nível, aqueles que falam acreditam que seja verdade.

É possível que as pessoas realmente não tenham consciência desses preconceitos dentro de si mesmas, tampouco do capacitismo que expressam no dia a dia. Mas o fato é que as discussões sobre o efeito negativo de palavras como “surdo-mudo”, por exemplo, vêm acontecendo em círculos de pessoas surdas e com deficiência há séculos. De acordo com Rosa Lee Timm, chefe de marketing da organização sem fins lucrativos Communication Service for the Deaf, em Maryland, nos EUA, essas discussões passaram batido pela maior parte da sociedade porque as pessoas sem deficiência acreditam que o capacitismo não as afeta, e a linguagem capacitista perpetua e justifica essa crença. “A linguagem capacitista incentiva uma cultura de segregação. Ela define, exclui e marginaliza as pessoas”, explica Timm.

Efeito bumerangue

Embora essas palavras e expressões sejam obviamente prejudiciais aos grupos que marginalizam, as pessoas sem deficiência que casualmente usam a linguagem capacitista podem estar impactando negativamente a si mesmas. “O que vai acontecer com esse grupo de pessoas sem deficiência quando mais tarde na vida — seja por uma perda auditiva, um acidente, um problema de saúde, o próprio envelhecimento ou qualquer outra coisa —, eles passarem para a comunidade com deficiência?”, questiona Timm. “A linguagem capacitista que eles usaram cria um ambiente opressor.”

Timm observa que esse ‘ambiente’ inclui um impacto na própria autoestima. “Os padrões de beleza são uma boa comparação, em termos do poder psicológico da linguagem”, diz ela. “Como mãe, se eu digo, ‘uau, isso é lindo’ ou ‘isso é feio’, meus filhos observam e internalizam… Isso pode ter um impacto profundo, especialmente se eles olharem para si mesmos e sentirem que não correspondem aos padrões… O mesmo vale para habilidades.”

Hale também acredita que as pessoas sem deficiência que vivenciarem a deficiência mais tarde na vida serão prejudicadas pela retórica que usam hoje. E observa que a natureza divisiva do capacitismo linguístico pode até ter um impacto negativo sobre as pessoas que nunca vão ter deficiência. “Machuca a todos nós quando desumanizamos formas de ser, e as construímos totalmente no negativo”, afirma.

Desconstruindo estruturas capacitistas

Dado o quão arraigado é o capacitismo em nossa sociedade, erradicá-lo pode parecer uma tarefa árdua. Estar ciente das palavras que você usa no dia a dia é uma etapa necessária no processo. “Desmantelar estruturas capacitistas não começa com a linguagem, mas construir um mundo sem elas requer que mudemos nossa linguagem”, diz Hale. Analisar as próprias expressões e tentar substituí-las por sinônimos menos problemáticos é um bom começo. “Pense no que você quer dizer. Não repita uma expressão apenas porque a ouviu, pense no que você está tentando transmitir”, sugere Hale. Muitas vezes, evitar eufemismos capacitistas significa apenas escolher uma linguagem mais direta e literal — ao invés de dizer que fulano “se fez de surdo”, você poderia falar que ele “ignorou” ou “decidiu não se envolver”.

A linguagem está em constante mudança, portanto, eliminar o capacitismo do seu vocabulário será um processo contínuo, e não algo pontual. Você pode tropeçar no início, mas conversar com pessoas com deficiência é uma maneira eficaz de encontrar o equilíbrio e continuar a construir um vocabulário mais inclusivo. “Meu conselho é sempre ouvir”, diz Timm. “Faça perguntas, evite suposições e comece escutando as pessoas que são mais impactadas. Reflita se a sua escolha de palavras está contribuindo para a opressão delas.”

Pode parecer desconfortável, mas o desconforto e a vulnerabilidade exigem introspecção, o que Hale aponta como chave para desmantelar atitudes capacitistas. “De acordo com a Scope [instituição voltada para deficiência e igualdade], dois terços da população britânica se sentem desconfortáveis ao falar com uma pessoa com deficiência”, afirma Hale. “Por quê? Se você conseguir entender por que se sente desconfortável, você está no caminho certo para mudar isso.”

Como melhorar a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho?

Como melhorar a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho?

Como a sua empresa atua em relação à inclusão de pessoas com deficiência? Nós queremos saber e vamos te ajudar. Essa é uma preocupação importante, já que a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho não é apenas para que a empresa esteja de acordo com a legislação vigente, mas também para que possa aproveitar devidamente os conhecimentos do profissional que possui deficiência.

Sem contar que, cada vez mais, o consumidor está atento a temas como inclusão de pessoas com deficiência. Muitos já avaliam isso antes de se tornarem clientes de uma empresa. 

Independente do objetivo, é necessário que a empresa faça todas as adequações necessárias para proporcionar uma inclusão verdadeira de pessoas com deficiência. Veja quais são elas.

1 – Siga a indicação da lei sobre processo seletivo de pessoas com deficiência no mercado de trabalho

Empresas com mais de 100 colaboradores devem, obrigatoriamente, contratar pessoas com deficiência. A Lei 8.213, também conhecida como Lei de Cotas, está vigente desde 1991 e determina a seguinte proporção em relação às contratações da equipe:

  • de 100 funcionários até 200 funcionários: 2% de funcionários portadores de deficiência;
  • entre 201 e 500: 3%;
  • entre 501 e 1000: 4%;
  • a partir de 1001: 5%.

2 – Adapte a seleção

Isso faz com que o processo de inclusão deva começar já na hora da seleção de candidatos. Afinal, para interagir com uma pessoa surda, por exemplo, será preciso se comunicar por meio de LIBRAS.

Se o candidato for cadeirante, se a estrutura dificultar o acesso, toda a experiência já será frustrante. Por isso, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho vai além de cumprir a cota determinada na lei. É preciso aperfeiçoar o processo seletivo. 

Para isso, é indicado considerar: 

  • Adequação do local e do formato da entrevista: o processo seletivo deve ser igual para todos, mas o processo deve levar em conta a deficiência. Se a pessoa for deficiente visual, é preciso oferecer um documento em braille para ela ser. Se for deficiente auditiva, é necessário se comunicar por meio de LIBRAS, o que pode ser feito, por exemplo, com ferramenta tecnológica, e assim por diante;
  • Competência para a função: a avaliação da competência para a função deve ser feita da mesma forma que para os demais sem deficiência. Assim, o foco deve ser na aptidão do candidato às atividades;
  • Capacidade de exercício da atividade: é preciso considerar o tipo de deficiência do candidato para indicá-lo ao cargo em que ele possa desempenhar a sua função como qualquer outro integrante da equipe;
  • Cuidado ao exigir experiência anterior: embora a  inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho seja amplamente discutida, elas ainda têm dificuldade em encontrar uma oportunidade. Por isso, é provável que o profissional não tenha experiência anterior e isso deve ser levado em consideração.  

Tenha atenção à acessibilidade

Além de um processo seletivo adaptado, é preciso se preocupar com a estrutura da empresa para promover a  inclusão de pessoas com deficiência na rotina de trabalho. 

Isso pode ser feito por meio de um mapeamento de acessibilidade. Com ele, será possível identificar locais já adaptados, bem como as melhorias que devem ser feitas para promover a  inclusão de pessoas com deficiência. 

Na sequência, a empresa deverá se adequar à Norma Técnica Brasileira número 9050 (NBR-9050). Para isso, é preciso identificar se há problemas, como:

  • estruturais: barreiras físicas, ausência de rampas de acesso ou de elevador, adaptação de banheiro, entre outros;
  • dificuldade de comunicação: falta de informativos em braile ou pelo desconhecimento de LIBRAS por parte da equipe de recursos humanos ou gestores;
  • instrumentos de trabalho que não permitam ou dificultem o uso por pessoas com deficiência.

Prepare a equipe para também incluir pessoas com deficiência no mercado de trabalho

A inclusão de pessoas com deficiência também envolve o time de trabalho. Além de ajustar o processo de seleção e a parte física, é necessário fazer com que a equipe esteja pronta para incluir.

Todos devem estar preparados para tratar o colega com respeito e sem preconceito. Esse ponto começa no setor de recursos humanos, responsável pela seleção e pelo acolhimento. 

Mas perpassa pela cultura da organização, da implicação de líderes e gestores, cujo papel de exemplo pode promover a pluralidade. Assim como no investimento em palestras de conscientização e cursos de adaptação.

Preocupe-se com a ergonomia para possibilitar a inclusão 

É preciso se preocupar com a segurança e conforto do deficiente dentro da empresa. Além de motivar o colaborador, isso faz com que ele possa ter mais autonomia. 

Sem contar que irá garantir segurança na hora de usar um equipamento ou de transitar pelo local de trabalho. Para isso, é preciso investir em itens como, por exemplo: 

  • sinalização tátil;
  • sinalização sonora;
  • sinalização visual;
  • adequação de banheiros, com portas que permitam a passagem de cadeira, barras para que a pessoa se apoie, entre outros;
  • rotas acessíveis.

Esses cuidados são essenciais para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Afinal, o ambiente inclusivo também deve considerar as disposições físicas e de segurança para esses profissionais. 

Capacite supervisores e chefes de equipe

O RH deve estar preparado e os demais colaboradores devidamente instruídos. Atitudes preconceituosas também devem ser punidas, mas para que tudo isso caminhe bem, as pessoas que ocupam cargos de chefia precisam estar prontas para isso.

Por isso, essas pessoas precisam ser treinadas e capacitadas. É necessário que elas conheçam a realidade das limitações existentes para esses profissionais facilitando o relacionamento. 

Entretanto, ao mesmo tempo que a inclusão de pessoas com deficiência exige a adaptação do ambiente, é preciso manter uma relação profissional. O contratado deve ser bem recebido, como qualquer outro colaborador. Lembre-se de que um tratamento diferenciado pode resultar em constrangimento. 

Para que isso aconteça, a capacitação de chefes de equipes e supervisores se faz necessária. Assim, os líderes estarão prontos para fortalecer as iniciativas de conscientização e melhorar o ambiente laboral. Assim, podemos concluir que a inclusão de pessoas com deficiência depende de:

  • alterações físicas;
  • adaptações ergonômicas;
  • treinamento e informação da equipe.

Será que a sua empresa está pronta para isso? Descubra respondendo ao quiz “Qual o nível de inclusão da sua empresa?”.

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