Diante de tanta morte, temos a chance de ressignificar a vida

29/03/2021

Estamos vivendo um momento delicado na história da humanidade, que vem gerando angústia devido ao quadro de perdas que infelizmente ainda se apresenta. As epidemias (antigamente usava-se a palavra pestes) mudam trajetórias de povos, e quando olhamos para o passado vemos o quão significativa é a transformação que elas promovem.

O tema morte está presente em nossas vidas desde que nos “entendemos por gente”. Lidar com a finitude é uma das principais angústias existenciais e isso nos constitui enquanto humanos. Temos consciência que os momentos têm fim e, apesar da angústia gerada, a conclusão leva à finalidade. Mas, afinal, qual é a finalidade da vida? Eis a questão que nos acompanha há tempos.

Olhar para a morte assusta. Contudo, também nos permite enxergar o seu oposto: a vida. E, nesse contraponto, ganhamos a possibilidade de dar sentido a algo único, conforme nossos desejos e potenciais. Podemos deixar a nossa marca e contribuir com o futuro, gerando assim uma transcendência que garante a permanência, mesmo que seja de maneira subjetiva.

Quando perdemos alguém, a dor é forte e real. Sim, a sensação é de que perdemos algo de nós. Melancolia e demais sintomas físicos podem traduzir essa dor tão intensa e são até esperados em momentos de luto, e cada pessoa utiliza recursos diversos da cultura em que está inserida para cuidar de si. Respeitando esse período, a perda ganha outros contornos e passamos para uma etapa importante, a de re-conhecer o que ficou em nós daquela pessoa amada.

No final do marcante ano de 2020 houve o lançamento do filme “Soul” (Pixar e Disney), que traz reflexões importantes sobre o momento da morte. A obra nos provoca a pensar na finalidade, ou melhor dizendo, no propósito da vida. Será que até então vivíamos (ou vivemos) de maneira inteira, curtindo os momentos na intensidade adequada para nos preencher de memórias e significados? O que de fato ganhamos com a vida? O que desejamos?

Na Idade Média ocorreu uma epidemia que contaminou toda a Europa, e em meio à sensação de desalento e forte angústia surgiu um movimento filosófico que divulgava o Carpe Diem, termo do latim que significa “colha o dia, aproveite o momento”. Séculos passaram-se e houve muita história daquele momento para o atual, mas ainda nos deparamos com essa expressão, seja em objetos decorativos ou em tatuagens. Hoje, novamente no contexto de uma pandemia, seguimos essa advertência? Estamos contemplando e aproveitando o momento em sua plenitude?

Uma das características da ansiedade que domina boa parte da população é que ela vem do fato de se viver de maneira acelerada e em busca de algo que nem se sabe bem o que é. Nesse compasso, não conseguimos perceber por inteiro os detalhes da vida e, internamente, a experiência se torna frágil, quase inexistente. Sem essa integração, nossos recursos internos ficam empobrecidos e a vida perde a sua potência.

A esperança é que possamos ressignificar nossa vida perante a realidade brutal e inequívoca que a morte nos impõe. Temos a chance de reaprender a viver, e assim o morrer pode ser algo que só delimitará nossa existência, sem impedir a sua plenitude e força. Ainda é tempo de viver.

                                                                                                                          Michelle Carioca

Março 2021                                                                                 Psicóloga da Unidade Clínica da Ame

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